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quinta-feira, 8 de maio de 2014

O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013)


Título no Brasil: O Homem Duplicado
Título Original: Enemy
Ano de Lançamento: 2013
Gênero: Suspense
País de Origem: Canadá / Espanha
Tempo de Duração: 90 minutos
Direção: Denis Villeneuve


"O caos é uma ordem por decifrar" – José Saramago

Digamos que você comece a assistir um filme na sua TV ou computador e de repente se depara com um figurante que é parecido com você. Aliás, não parecido, mas extremamente igual. Cabelo, rosto, particularidades corporais, tudo! É exatamente isso que acontece com Adam, personagem interpretado por Jake Gyllenhall, que, após ir a uma locadora, chega em casa e descobre um sósia durante uma rápida passagem de cena. É aí que o protagonista começa sua jornada. Tentando saber quem é o rapaz idêntico a ele, junta algumas informações necessárias e segue sua procura pela cópia de forma obsessiva. Não consegue pensar mais em nada a não ser encontrá-lo.
O Homem Duplicado, baseado na obra de nada mais nada menos que José Saramago, não é um filme comercial que agrade a todos. Confuso e lento demais, é bem mais profundo do que se imagina. Porém, tem o poder de te levar para a mente perturbada do personagem central, nos fazendo sentir como se estivéssemos num pesadelo como ele muitas vezes o é, com cenas mal explicadas e soltas no ar. O filme não se trata, porém, de um suspense qualquer, o que pode frustar o público que espera um fim mais concreto.
Cheio de simbolismos - como a imagem de uma aranha que aparece do começo ao fim da história, em diferentes tamanhos – você pode facilmente se perder e ficar com cara de “paisagem” olhando para a tela logo após o surgimento dos créditos finais. Durante a trama, percebemos que a tal aranha representa a figura feminina e que, na verdade, nada é o que parece. Mas se levarmos em conta a força e complexidade que uma cabeça perturbada e paranóica pode ter, será bem mais fácil de aceitar tudo.
Adam é um homem preso à sua mente (que é representada por uma cidade amarelada, fria e nebulosa), a alguns traumas do passado e ao desejo de voltar a fazer coisas que não gostaria, desenvolvendo uma luta entre o bem e o mal que sempre se manifesta e se repete. E sendo a mente humana muito complexa, e se tratando de um drama que quer retratar exatamente isso, a história cumpre bem o seu papel. Mas para isso é necessário ir preparado para esses fatos e liberto para adentrar esta porta misteriosa e secreta.

NOTA DO CLUBE: 7,0.   

segunda-feira, 5 de maio de 2014

JOVEM E BELA (Jeune & Jolie , 2013)


Título no Brasil: Jovem e Bela
Título Original:
Jeune & Jolie
Ano de Lançamento:
2013
Gênero:
Drama
País de Origem:
França
Duração:
95 minutos
Direção:
François Ozon

Jovem e Bela (Jeune & Jolie , 2013) se inicia com um plano subjetivo: o contorno de um binóculo enquadra uma moça, jovem e bela, que se banha no mar e que, depois de algum tempo, sai da água. O binóculo, sempre trêmulo, acompanha cada passo da garota. Ela segue até a toalha, se desfaz da parte de cima de seu biquíni e deita relaxada, se deixando queimar pelo sol. A câmara se agita e nós também, curiosos para saber quem está por trás das lentes. Vamos para o segundo plano, agora objetivo. Vemos um menino pré-adolescente entre os arbustos. É revelada a identidade física do observador. Terceiro plano: olhamos de cima para a moça com os seios de fora. De repente entra em cena a sombra de uma mão que vai percorrendo seu corpo, que lhe cobre o peito e que continua até o pescoço e rosto. Ela acorda sobressaltada com a sombra que a envolve. É o garoto do binóculo que lhe queria pregar uma peça. A jovem se veste, irritada. Ele é, contrariando todas as suposições da plateia, apenas seu irmão. Afinal nada havia de sexual na cena, mas a história nos leva até esse intuito propositalmente.
Conhecemos Isabelle, uma jovem de 17 anos que, ao longo das quatro estações de um ano, vai sofrendo transformações. Ela se prostitui, mas sabemos que não é por falta de dinheiro. O que verdadeiramente a leva a entrar neste jogo perigoso é o que o diretor François Ozon nos desafia a descobrir o tempo todo.
Isabelle é, percebemos isso desde o começo da trama , uma jovem intensa, provocadora e de pouquíssimas palavras. Tem, inclusive, uma imensa dificuldade em se relacionar de maneira afetuosa com as pessoas. A não ser com o irmão, por quem ainda demonstra um pouco de carinho. Ainda assim, a questão permanece: o que faz uma linda mulher, que tem família, dinheiro e que pode ter o rapaz que desejar (ela rejeita todos) a fazer esse tipo de coisa? Que tipo de vazio atormenta a personagem? Ela procura perigo? Vê algum fetiche na situação? Perto do final, o texto parece nos dar uma possível resposta, mas vai do público tirar sua própria conclusão. Ou não.

A atriz Marine Vacth nos oferece essa carga de apatia constante e solidão interior. Sem pudores, ela dá forma e alma a essa prostituta que parece não saber qual é o seu lugar no mundo.

NOTA DO CLUBE: 7,0.  

terça-feira, 29 de abril de 2014

MINHA IRMÃ (L'enfant d'en Haut), de Ursula Meier (França/Suíça, 2012)


Diretor: Ursula Meier
Elenco:
Léa Seydoux, Kacey Mottet Klein, Martin Compston
Roteiro:
Antoine Jaccoud, Ursula Meier
País de Produção:
França/Suíça (2012)
Tempo de Duração: 100 minutos
Classificação:
Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero:
Drama

“Por que você rouba?”, pergunta um chef de cozinha irritado ao encontrar Simon (Kacey Mottet Klein) roubando equipamentos de esquis na despensa do restaurante. Inquietantemente imperturbável, o menino Simon dá de ombros: “Não sei. Para comprar coisas. Papel higiênico, leite, pão.”
Situado nos Alpes Suíços, “Minha irmã” conta a história de um garoto que, vivendo com a irmã mais velha (porém mais irresponsável) com quem divide um apartamento no subúrbio, sai de casa todas as manhãs e sobe até a luxuosa estação de esqui quilômetros acima, tudo por meio de um teleférico. Lá ele rouba equipamentos caros dos turistas que visitam o local para depois vendê-los para as crianças do seu bairro. Desse modo, vai fazendo negócio e resolvendo as necessidades diárias de seu lar. Não há notícias do que acontecera com seus pais.
Durante os furtos que pagam  até mesmo as roupas da irmã que chega a ficar dias sem aparecer em casa, Simon usa óculos escuros e se mistura casualmente com os clientes da classe alta. No “mundo abaixo”, trata dos equipamentos com cera e outros artifícios para deixar tudo com melhor aparência e poder vender com mais facilidade.
A descrição desta economia paralela de um pré-adolescente é o ponto mais forte do filme, e isso a diretora Ursula Meier faz com extrema delicadeza em suas cenas tocantes. Outra coisa que chama atenção é a lentidão das cenas, mas por vezes necessária para mostrar a vida arrastada daquele garoto e sua solidão, mesmo quando o falatório e alegria dos turistas estão em evidência.
O cenário exprime-o perfeitamente, como mostrador da miséria e da relação entre pobres e ricos, separados não por uma favela ou coisa do tipo, mas por um monte; exprime-o também pela imensidão branca e luminosa do topo, oposta à penumbra que é o território natural do pequeno ladrão. Todas as cenas com o menino em ação, apanhando skis, mochilas, protetores, fazendo as suas negociações, ou ainda mantendo relações com alguns dos turistas que futuramente serão furtados, são impecáveis. Ele soa como um aprendiz de batedor-de-carteira descobrindo suas habilidades e se orgulhando disso, tornando o roubo como compulsão além da necessidade.
A relação com a irmã é dolorida, vazia e distante como a montanha branca. A história inteira é. Pessoas esperando pelo florescer da primavera de suas almas.


NOTA DO LANTERNINHA: 9,0.